Entre a Escola de Frankfurt e o Black Flag
O retrato de José Serra e a maldição de Dorian Gray

por Marco Aurélio Weissheimer, na agência Carta Maior.

Em uma matéria sobre a candidatura de José Serra, publicada no dia 21 de abril de 2010, a revista Veja apresentou o candidato tucano como o homem capaz de “liderar o Brasil na era pós-Lula”. “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”, diz Serra na matéria que apresenta entre as supostas virtudes do candidato a capacidade de “formar boas equipes e desestimular antagonismos corrosivos entre os membros do governo”.

Infelizmente, para a Veja e para Serra, de lá para cá, o que menos se vê na campanha tucana é a “formação de boas equipes” e o “desestímulo a antagonismos corrosivos”. Muito pelo contrário. Antagonismos corrosivos parecem ser um dos eixos programáticos da candidatura Serra. O processo de escolha do vice é rico em ilustrações a respeito. Em meio ao fogo cruzado que se estabeleceu entre PSDB e DEM, no debate sobre a escolha do vice, aliados de Serra deram depoimentos a respeito do candidato que não definem exatamente alguém capaz de “desestimular antagonismos corrosivos”.

“O poder do Serra de desorganizar as coisas é fora do comum. O Álvaro Dias não acrescenta nada e desagrega muito”, escreveu o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) no twitter, logo após ter ficado sabendo, pela imprensa, da indicação de Dias para ser vice de Serra. “O DEM não poderia saber da indicação do vice pela imprensa. Que tipo de parceria é esta?”, acrescentou o deputado Felipe Maia (DEM-RN). Fiel ao seu estilo,o ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, respondeu, também pelo twitter: “O DEM é uma merda”. Em meio a esse tiroteio, a campanha de Serra sofreu outro revés. No dia 30 de junho, o Partido Social Cristão (PSC) rompeu a aliança que havia feito com o PSDB e anunciou o apoio formal à candidatura de Dilma Rousseff á presidência da República.

As brigas, antagonismos e desencontros se sucedem na campanha tucana. Aliados históricos de Serra imprimiram seus materiais de campanha sem mencionar seu nome nos mesmos. De Norte e Sul do país, diferentes marqueteiros dão o mesmo conselho: associar o nome a Serra pode custar muitos votos. Mesmo aliados tradicionais de Serra, como Arthur Virgílio (PSDB-AM) e José Agripino Maia (DEM-RN) estão distribuindo material de campanha sem mencionar o nome de seu candidato a presidente. Neste cenário, a matéria da Veja assume tons cômicos:

“Para aumentar sua massa de eleitores no Norte e no Nordeste, Serra conta com bons palanques estaduais. Ele terá, ao contrário do que ocorreu com Geraldo Alckmin em 2006, diversos candidatos competitivos disputando o cargo de governador a lhe dar sustentação nessa empreitada” – profetizou Veja com toda sua sabedoria.

As brigas na campanha de Serra fazem lembrar as propagandas das famosas facas guinsu, aquelas que cortavam até canos de aço sem perder o fio. Quando você acha que acabou lá vem o aviso: mas isso não é tudo. A última de Serra é a briga que ele comprou com o presidente do DEM, Rodrigo Maia. Matéria do jornal O Estado de São Paulo (10/08/2010) informa:

“Não existem mais pontes entre o presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), e o candidato tucano. As poucas que um dia chegaram a existir foram todas “dinamitadas”. A gota d’água numa relação que sempre foi tumultuada aconteceu na semana passada. Serra cobrou Maia sobre uma declaração que ele havia dado a respeito da candidatura de Fernando Gabeira (PV) no Rio de Janeiro. Diante da falta de empenho, Gabeira disse que, se eleito, se sentia no direito de “dar uma banana” aos aliados. Maia, em seguida, afirmou que a “banana” devia ser para Serra. O tucano ligou para o presidente do DEM e pediu que se retratasse. Maia não fez retificação e os dois romperam”.

A maldição de Dorian Gray parece ter se abatido sobre José Serra. A imagem meiga e angelical pintada na capa da revista Veja vai se transformando, ao longo da campanha no retrato de alguém truculento, autoritário e especialista em provocar “antagonismos corrosivos”. Serra vem exercitando essa capacidade com amigos e inimigos, sem distinção. Além de dinamitar pontes com aliados, já xingou e brigou com jornalistas, acusou o governo de um país amigo do Brasil de estimular o tráfico de drogas e qualificou de farsa o processo de integração sulamericano.

Curiosamente, o retrato de José Serra que vai aparecendo durante a campanha se assemelha cada vez mais aquele que seus aliados tentam colar em Dilma Rousseff. Vide a “entrevista” truculenta conduzida por William Bonner, no Jornal Nacional (as aspas são uma homenagem à inusitada prática de perguntar e não deixar a entrevistada responder, mais uma contribuição da Globo à inovação do jornalismo brasileiro). O comportamento recente de Serra com jornalistas recomenda uma boa dose de cautela para o casal Bonner-Bernardes quando for a vez de entrevistá-lo. Perguntas sobre práticas truculentas e autoritárias podem ser respondidas com uma demonstração didática das mesmas. O retrato pintado pela revista Veja começa a apresentar contornos e tonalidades que variam entre o incômodo e o sinistro.

Erramos

No post anterior, esquecemos de citar a fonte da primeira citação. Trata-se do historiador egípcio Eric Hobsbawn, um dos historiadores mais influentes do séc. XX.

Vou passar o fim de semana fora, volto na segunda.

“’A esquerda está virtualmente ausente. Assim, me parece que o principal beneficiário deste descontentamento atual, com uma possível exceção – pelo menos eu espero – nos Estados Unidos, será a direita’”, disse Hobsbawn, em entrevista à Rádio 4.(da BBC Brasil, em 21 de outubro de 2008)

Ah, como é triste quando esses pessimistas pensantes estão certos…

O vídeo que eu postei acima passou quinta na Globo News e trás a mais nova figura de destaque da Jihad contra a Jihad: Geert Wilders, uma versão holandesa, gorda, xenófoba e mais gorda ainda do Dolph Lundgren (aquele loiro que fez o Soldado Universal com o Van-Damme). Representante da boa e velha classe média em pânico, que se expande com a mesma velocidade da peste bubônica ou da família Restart, seu plano é o plano de quase toda a Jihad do ocidente branco, bonito e cristão: encurralar o Islã dentro do Oriente Médio, uma espécie de quarentena para evitar que estes sujos e leprosos contaminem a nossa democracia.

O partido de Wilders, o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (em holandês, PVV), foi responsável pela proposta mais ridícula da década: taxar o uso de véu na Holanda. Por véu, entenda qualquer tipo de lenço que você botar na cabeça. Toda mulher deveria pedir uma licença e pagar uma taxa de 1000 euros anuais pelo direito de usar véu. Não sem motivos, diversos deputados perguntaram se era uma piada. Come se já não bastasse, propuseram que o governo passasse a chamar a Jordânia por Palestina e que a Holanda saísse da União Européia caso a Turquia entrasse. Resumindo, é o Armadinejad deles.

O problema maior não é nem o PVV falar coisas como essas, afinal, sempre tem um pra falar bobagem. O problema é que eles estão se multiplicando: Tea Party nos EUA e sua lei de imigração no Arizona, a lei anti-burca do governo Sarkozy, Partido do Povo Dinamarques e também sua lei de imigração e manifesto paulista e anti-nordestino que circula na internet.

Isso é a História. E com ela se surpreende quem dela nada entende, já diria o 18 de Brumário. Em momentos de crise, a história das civilizações converte-se na guerra de gangues. Aconteceu depois antes da I Guerra, depois dela e repete-se agora. O problema é que há 40 anos atrás havia uma mínima polarização teórica, uma mínima batalha de idéias. Entretanto, desde o fim da União Soviética, a esquerda permanece correndo atrás do rabo desde então (O Partido Socialista Francês se absteve da votação sobre a lei anti-burca), frustrando qualquer expectativa que a Marilena Chauí tenha apresentado durante o Roda Viva. Os campos do centro mostram-se incapazes de opor-se com eficácia aos extremistas, voltados ao seu pragmatismo eleitoreiro que os faz encolher-se frente a qualquer assunto polêmico. O caminho está livre.

Tais propostas que tentam tratar a questão árabe como caso de polícia, e que vem ganhando adeptos por toda Europa, ao invés de salva-guardar a semi-democracia, apenas fortalecem ainda mais o sentimento bairrista e fundamentalistas de grupos islâmicos dentro e fora da Europa. A opinião não é minha (afinal, quem é que vai me escutar?), é de Tariq Ali, ensaísta, dramaturgo, romancista, ativista e editor da revista acadêmica New Left Review, e de Fabrice Dhume, especialista em racismo e discriminações do Instituto Social e Cooperativo de Pesquisas Aplicadas, que declarou ao Portal Terra:

“O Estado não está pronto para aceitar o choque de civilizações de que está a ser palco e procura meios para encerrá-lo à força”

Wilders, em sua análise cínica e simplista da questão árabe, esquece de considerar em sua suposta equação da democracia liberal do ocidente (nós=bons; eles=maus) que boa parte das ditaduras fundamentalistas do mundo árabe, como Egito e Arábia Saudita, são sustentadas pelas democracias ocidentais, EUA e Reino Unido em especial. O Islã é só a válvula de escape de uma questão tão mais econômica, política e social do que qualquer outro aspecto. E essas disputas econômicas por reservas naturais, em especial água e petróleo, fortalecem aos braços armados na Região.

“Eu tenho duas explicações. Primeiro, o impacto destrutivo da renda do petróleo e do gás, que fortalecem o absolutismo. Em segundo lugar, os contínuos conflitos fortalecem os serviços de segurança, o Exército e o poder Executivo em detrimento da sociedade civil. Mas eu sou a primeiro a admitir que mesmo estas explicações são parciais.”

É o que diz Rashid Khalidi, historiador americano de origem palestina e  titular da cadeira Edward Said de Estudos Árabes da Universidade Columbia, em Nova York, em entrevista ao blog de Gustavo Chacra.

Wilders, a besta da nova Jihad, pouco ou nada adiciona para a solução do déficit democrático no Oriente Médio. Sua proposta é puramente higienista. Ele quer limpar a paisagem protestante que reinava sobre a Holanda e toda a Europa. Tanto que um dos argumentos de seu partido para taxa o uso do véu era, entre outros, que ele era feio (aqui). Pode parecer piada, mas não é. Em tempos de déficit econômico, a decência e o cavarelhismo que reinaram nos anos anteiores são mandados ao inferno e cada um busca apontar culpado. A verdade é que o suposto conflito entre civilizações, são, na verdade, conflitos dentro de uma mesma civilização.

O Ocidente cumpre as previsões da Escola de Frankfurt, despindo-se de qualquer pudor e partindo para as soluções anti-democráticas visando salva-guardar a democracia. Aconteceu na URSS, na Alemanha, na América Latina… mas agora, o fenômeno é generalizado. Isto fica claro quando Wilders apóia as ações da “democracia” israelense, que insiste em negar o direito secular do povo palestino à um Estado e uma história. O recado que ele deixa para Israel é que “Israel está lutando a nossa luta. Se Jerusalém cair, Roma e Atenas serão os próximos”.

Repito: ah, como é triste quando estes pessimistas pensantes estão certos.

Sadenberg, o ruim de bola!

Ver Carlos Alberto Sadenberg, comentarista de economia da rede globo e da CBN, meter os pés pelas mãos deveria ser o verdadeiro esporte nacional. Sério! Nada faz mais bem pro ego do que assistir o Sadenberg no Jornal da Globo (o Alexandre Garcia no Bom Dia, Brasil também serve) falar alguma coisa que mostra-se completamente falso dois ou três meses depois. Dá uma paz de espírito.

Hoje, por exemplo, meu dia foi, mais uma vez, alegrado por esta constatação. Eu explico.

Ante-ontem, Sadenberg publicou um artigo na sessão opinião do Estadão, intitulado “A Fúria, produto do livre-mercado”. Nele, o “economista” (entre aspas mesmo) publicou que a razão pelo tamanho sucesso da seleção espanhola na Copa foi… o neoliberalismo!

“O sucesso da seleção espanhola, a Fúria (*), demonstra como é correta a tese favorável aos mercados abertos. Na verdade, o que acontece no futebol espanhol é a realização completa dessa ideia, tão cara a muitos economistas.

(…)

Em qualquer caso, a consequência é a elevação do nível do futebol importador. Os jogadores locais, para conseguirem vaga nos times, precisam evoluir até o ponto em que estão os estrangeiros, com os quais passam a competir”

Sobre as seleções da Itália e da Inglaterra, também adeptas do “neoliberalismo das quatro linhas” e que não tiveram bons desempenhos (A Itália foi eliminada na primeira fase como a pior de sua chave, enquanto a Inglaterra foi eliminada nas oitavas-de-final metendo um constrangedor 0x4 na seleção da Alemanha), Sadenberg diz que é tudo “circunstancial”, é tudo um jogo do acaso, afinal, futebol é uma caixinha de surpresas, mas com certeza o neoliberalismo das quatro linhas deixa a caixinha muito mais glamourosa.

Daí, então, como uma perua que se mantêm às custas de um marido rico que foge com a secretária de 22 anos e pernas de veludo, eis que o castelo de cartas de Carlos Alberto Sadenberg vem ao chão.

Às 10 e 46 de hoje, a Folha.com publica notícia da agência EFE que dá o tiro de misericórdia nessa teoria já suficientemente furada: “relatório da empresa de consultoria AT Kearney” aponta que o futebol da Inglaterra, Espanha e Itália vai falir.

De acordo com o relatório, antecipado pelo jornal espanhol “El País”, apenas duas das cinco competições analisadas, os Campeonatos Alemão e Francês, contam com uma rentabilidade econômica positiva, de 2% e 1%, respectivamente, enquanto nas outras três é negativa: -12% na Itália, -7% na Espanha e -5% na Inglaterra. A rentabilidade de empresas de outros setores é de, em média, 4%.

De acordo com a AT Kearney, se as ligas italiana, espanhola e inglesa fossem empresas estariam falidas em dois anos. O relatório também explica que “não é absurdo” pensar que alguns clubes podem fechar as portas a médio prazo.

O triunfalismo da centro-direita brasielira com o neoliberalismo (uma versão própria de uma suposto “nunca antes na história deste país”) quase sempre morre frente a um adversário implacável com todos nós, sejamos destros ou canhotos: a história.

Mas o inaceitável são estes sujeitinhos que esperam que, misteriosamente, 2+2 virem 5. Foi tal postura que disparou a atual crise mundial, a de ignorar crises anteriores em países com Argentina, Brasil, Rússia e Sudeste Asiático, que desenvolveram-se durante toda a década de 90 e início dos anos 2000.

E eles continuam sem aprender, pois a mesma política de austeridade fiscal que hoje virou o mote do cassino financeiro (que Sadenberg que transformar na “pelada financeira depois do trabalho”) foi a mesma medida meia-boca aplicada pelo FMI com a Argentina em 2001.

Mas, não se preocupem. Sadenberg, o ruim de bola, vai continuar na luta para provar que o mercado vai melhorar tudo: desde a distribuição de renda até a sua nota em Cálculo III. Se a esquerda tinha frases como “Free Mumia Abu-Jamal” ou “Free Tibet”, a direita não fica atrás, aqui é “Free the Market”. O problema é que o mercado não estava preso em uma cadeia comum, mas na Caixa de Pandora.

Índio da Costa, um homem que operou o cérebro.

Ontem, o Estadão publicou entrevista com o candidato a vice-presidente da principal chapa de oposição, o deputado Antonio Pedro de Siqueira Índio da Costa (DEM-RJ), feita por Cristiana Samarco. Selecionei alguns trechos. Vamos a eles.

“O Serra é a garantia de manutenção dos royalties do Rio de Janeiro”, afirma em entrevista ao Estado.

(Serra é a garantia da manutenção de muita coisa: do latifúndio à concentração de renda)

“Envelheci uns 30 anos depois que passei 10 horas no centro cirúrgico operando um aneurisma cerebral, em 2003. Não perdi minha alegria, mas a sensibilidade aumenta muito e isso faz muita diferença, porque governar é cuidar das pessoas.

(Falou ele, Índio da Costa, o autor do projeto que proibia a esmola aos pedintes, sob risco de multa [aqui]. Se governar é cuidar das pessoas, Índio e eu temos concepções diferentes sobre o que é ‘cuidar’ e o que exatamente são ‘pessoas’. Mas, principalmente, do que é cérebro.)

Mas isto não pode gerar problema com outros Estados?

Não é impossível prestigiar o Brasil como um todo sem sacrificar os Estados produtores de petróleo. O Serra tem competência para encontrar essa fórmula. Os royalties existem para prevenir e compensar os impactos urbanos, sociais e ambientais que a exploração do petróleo acarreta.

(‘O Serra tem competência para encontrar essa fórmula’, em língua de gente: ‘Nem Serra nem eu sabemos que diábos de fórmula é essa’)

O sr. não está subestimando a experiência dela no ministério, à frente da Casa Civil?

Se é experiente, porque ela não abre a boca, então? Porque não debate, não participa? A Dilma é um boneco. É uma candidata que vai ficar calada até o final. Ela não está com coragem de participar de nenhum debate porque não tem consistência. Até hoje ela não apareceu em nenhum debate com Serra e, pelo que estão dizendo na campanha do PT, não aparecerá.

(Legal, agora é ele tem agentes infiltrados na campanha do PT?!)

O sr. se sente preparado para eventualmente substituir Serra, que a todo instante exalta seu perfil de administrador experiente?

Além de ser um excelente professor, o Serra tem uma tremenda estrutura. Há quase 50 anos ele monta equipes, e boas equipes. Se o Serra for ficar um mês na China, continuará como se estivesse sentado na cadeira de presidente, igualzinho. Vai despachar por telefone, por e-mail e não vai ter nem problema de fuso horário.

(Serra ficou com inveja da Dilma puxando o saco do Lula, foi lá e consegui um puxa-saco pra ele também)

Em 2003 eu descobri que tinha um aneurisma e operei minha cabeça. Ainda no hospital, resolvi desenvolver um instituto que pudesse pensar maneiras novas de desenvolver políticas públicas. Eu geoprocessei a cidade do Rio inteira”

(Na página da entrevista, um leitor sintesa a situação melhor do que eu jamais poderia: “que tal um candidato a vice-presidente que menciona como uma de suas principais qualidades o fato de já ter operado o cérebro?”)

*charge por Fernandez, retirado do blog “Tijolaço

Na última sexta-feira, veio a tona um momento raro: João Pedro Stédile, economista e membro da  coordenação nacional do MST, rompeu seu característico silêncio para com  a mídia e concedeu entrevista à Natuza Nery, da agência Reuters. E como se o meu artigo para o Intercom já não estivesse suficientemente atrasado, eu encontro tempo para comentar a entrevista aqui.
A entrevista  qualificou o JP (como eu carinhosamente o chamo) como um “economista  marxista”. De fato, é. Entretanto, Stédile parece negar aquele que é o pilar básico da  teoria desenvolvida pelo alemão mais comentado e menos lido de todos os tempos: a  História.
Stédile, aponta como  falsa a propaganda do governo Lula no que tange a questão campesina.

“‘Lula não fez reforma agrária, mas  uma política de assentamento…Metade  dos números do governo é propaganda’, afirma Stédile”.

Em outro ponto da entrevista lê-se:

“nos últimos anos, justamente  num governo considerado amigo, o MST tenha  se enfraquecido e chegado à conclusão de que ‘o agronegócio venceu’”.

Mas,  vai saber porque, JP insiste na mesma fórmula:”O PT é nosso amigo! O PT é nosso colega! Eles vão fazer com a gente o que… [censurado pelo meu bom senso]”. E o  motivo que Stédile aponta para o MST continuar chutando cachorro morto é  tão ruim quanto o que a disculpa tenta justificar:

“Um operário, diante de um  patrão reacionário, não se mobiliza. Com  Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar, que  poderemos avançar, fazendo mais ocupações e mais greves” 

O  que Stédile fez aqui, criançada? Piorou um dos eixos centrais do trotskismo, que eu  já achava bem ruinzinho, o de que “a crise do proletariado é a  crise de sua direção”. Aqui, a crise do proletariado é a crise de  seu patrão.
Mesmo criticando a política do governo Lula para a  questão da reforma agrária, Stédile insiste em aposta na continuidade  deste projeto. Em defesa de tal, ele apontou a margem de mobilização que  se abriria. A candidata governista pensa diferente: em almoço com o  Grupo de Líderes Empresariais no dia 5 deste mês, ao contrário do  entendimento de Stédile, Dilma Rousseff defendeu a política para o campo  do governo Lula como forma não de mobilização, mas de combate ao MST.

“‘O  MST tem muito menos razão para se mobilizar. A maior arma foi a  política social muito bem sucedida. Isso configura a verdadeira forma de  se combater. Você tira a base. Demos a eles (pequenos agricultores) uma  alternativa ao programa do MST’, disse Dilma, nesta segunda-feira, em  almoço promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), entidade que  reúne 44% do PIB privado do país.”
(informações retiradas de notícia de Ricardo Gardalho, do Portal IG)

A amarga verdade por trás desta afirmação é que, a ocontrário do que Dilma fala em almoços com os donos de 44% do PIB privado brasileiro, a política de reforma agrária do governo Lula não está funcionando: dia 22 do  mês passado, o Estadão publicou trechos de um documento do Ministério do  Planejamento que foi logo retirado da página virtual da pasta  ministerial.

“‘Pode-se afirmar que, até o  momento, não se conseguiu realizar a reforma  agrária, de fato’, diz o documento. ‘Apesar de passarem a ter acesso a  terra e a alguns serviços, a qualidade de vida dessas populações (os  assentados) permanece muitas vezes a mesma que era antes de terem sido  assentadas.’”

O texto ainda aponta diversos  outros problemas, como a falta de assistência técnica aos assentados e a  falta de planejamento para o tema. “nem foram traçadas metas para a reforma  agrária para o período do PPA  (Plano Plurianual de Investimentos) 2008-2010.”, diz o documento.
Outro problema foi apontado pelo jornalista Evandro Éboli no jornal O Globo: os índices de produtividade, que norteiam o processo de desapropriação de terras improdutivas, estão totalmente defasados. Por exemplo: para uma terra voltada para a pecuária ser tida como improdutiva  em Alta Floresta (MT), ela precisa ter uma Unidade Animal por Hectare de, no mínimo, 0.46, menos de meia vaca em um hectare inteiro. A atualização de tais índices era uma promessa do governo Lula e, segundo os procuradores Álvaro Manzano e Luciana Oliveira, tem sua efetivação dificultada pela pasta da Agricultura. Os dois procuradores movem ação contra o governo pela atualização destes índices.
É essa a política de reforma agrária que Dilma defende.
Em ano futebolístico, Stédile disse que o voto do MST em Dilma é puramente pragmático. “É como se você percebesse que seu time pode cair pra segunda divisão e  faz o que for possível para vencer o campeonato.”, diz ele. Eu devolvo contraponho um outro comentário sobre futebol: a sabedoria popular diz que em time que tá ganhando não se mexe. O problema é que o time dele não está ganhando. E JP sabe disso.
*foto por Sergio Moraes/Reuters

Na última sexta-feira, veio a tona um momento raro: João Pedro Stédile, economista e membro da coordenação nacional do MST, rompeu seu característico silêncio para com a mídia e concedeu entrevista à Natuza Nery, da agência Reuters. E como se o meu artigo para o Intercom já não estivesse suficientemente atrasado, eu encontro tempo para comentar a entrevista aqui.

A entrevista qualificou o JP (como eu carinhosamente o chamo) como um “economista marxista”. De fato, é. Entretanto, Stédile parece negar aquele que é o pilar básico da teoria desenvolvida pelo alemão mais comentado e menos lido de todos os tempos: a História.

Stédile, aponta como falsa a propaganda do governo Lula no que tange a questão campesina.

“‘Lula não fez reforma agrária, mas uma política de assentamento…Metade dos números do governo é propaganda’, afirma Stédile”.

Em outro ponto da entrevista lê-se:

“nos últimos anos, justamente num governo considerado amigo, o MST tenha se enfraquecido e chegado à conclusão de que ‘o agronegócio venceu’”.

Mas, vai saber porque, JP insiste na mesma fórmula:”O PT é nosso amigo! O PT é nosso colega! Eles vão fazer com a gente o que… [censurado pelo meu bom senso]”. E o motivo que Stédile aponta para o MST continuar chutando cachorro morto é tão ruim quanto o que a disculpa tenta justificar:

“Um operário, diante de um patrão reacionário, não se mobiliza. Com Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar, que poderemos avançar, fazendo mais ocupações e mais greves”

O que Stédile fez aqui, criançada? Piorou um dos eixos centrais do trotskismo, que eu já achava bem ruinzinho, o de que “a crise do proletariado é a crise de sua direção”. Aqui, a crise do proletariado é a crise de seu patrão.

Mesmo criticando a política do governo Lula para a questão da reforma agrária, Stédile insiste em aposta na continuidade deste projeto. Em defesa de tal, ele apontou a margem de mobilização que se abriria. A candidata governista pensa diferente: em almoço com o Grupo de Líderes Empresariais no dia 5 deste mês, ao contrário do entendimento de Stédile, Dilma Rousseff defendeu a política para o campo do governo Lula como forma não de mobilização, mas de combate ao MST.

“‘O MST tem muito menos razão para se mobilizar. A maior arma foi a política social muito bem sucedida. Isso configura a verdadeira forma de se combater. Você tira a base. Demos a eles (pequenos agricultores) uma alternativa ao programa do MST’, disse Dilma, nesta segunda-feira, em almoço promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), entidade que reúne 44% do PIB privado do país.”

(informações retiradas de notícia de Ricardo Gardalho, do Portal IG)

A amarga verdade por trás desta afirmação é que, a ocontrário do que Dilma fala em almoços com os donos de 44% do PIB privado brasileiro, a política de reforma agrária do governo Lula não está funcionando: dia 22 do mês passado, o Estadão publicou trechos de um documento do Ministério do Planejamento que foi logo retirado da página virtual da pasta ministerial.

“‘Pode-se afirmar que, até o momento, não se conseguiu realizar a reforma agrária, de fato’, diz o documento. ‘Apesar de passarem a ter acesso a terra e a alguns serviços, a qualidade de vida dessas populações (os assentados) permanece muitas vezes a mesma que era antes de terem sido assentadas.’”

O texto ainda aponta diversos outros problemas, como a falta de assistência técnica aos assentados e a falta de planejamento para o tema. “nem foram traçadas metas para a reforma agrária para o período do PPA (Plano Plurianual de Investimentos) 2008-2010.”, diz o documento.

Outro problema foi apontado pelo jornalista Evandro Éboli no jornal O Globo: os índices de produtividade, que norteiam o processo de desapropriação de terras improdutivas, estão totalmente defasados. Por exemplo: para uma terra voltada para a pecuária ser tida como improdutiva em Alta Floresta (MT), ela precisa ter uma Unidade Animal por Hectare de, no mínimo, 0.46, menos de meia vaca em um hectare inteiro. A atualização de tais índices era uma promessa do governo Lula e, segundo os procuradores Álvaro Manzano e Luciana Oliveira, tem sua efetivação dificultada pela pasta da Agricultura. Os dois procuradores movem ação contra o governo pela atualização destes índices.

É essa a política de reforma agrária que Dilma defende.

Em ano futebolístico, Stédile disse que o voto do MST em Dilma é puramente pragmático. “É como se você percebesse que seu time pode cair pra segunda divisão e faz o que for possível para vencer o campeonato.”, diz ele. Eu devolvo contraponho um outro comentário sobre futebol: a sabedoria popular diz que em time que tá ganhando não se mexe. O problema é que o time dele não está ganhando. E JP sabe disso.

*foto por Sergio Moraes/Reuters

por @lucastakano

por @lucastakano

Sindicalismo no Brasil: verdades e meias-verdades

Esta semana alguns dos principais impressos do país dedicaram espaço a um tema que tornou-se polêmico depois que Lula chegou ao poder: o sindicalismo no Brasil. Na última quarta, a Valor Econômico (infelizmente, exclusivo para assinantes) publicou matéria do jornalista João Villaverde sobre as práticas de filiação que algumas das centrais sindicais do Brasil estão praticando para alcançar os novos 7% de representatividade necessário para usufruir dos bojos do tão falado Imposto Sindical. O tema foi tratado também em artigo publicado no caderno Opinião d’O Estado de S. Paulo intitulado “O Mercado Sindical”

Não vim aqui defender o sindicalismo praticado no Brasil, pelo contrário, acho-o uma droga. Mas os dois artigos pecam pela falta de um resgate histórico de como o sindicalismo brasileiro virou o que é (sem denuncismo barato, afinal, com o espaço de uma página de jornal impresso não dá pra fazer muita coisa). Pode parecer coisa de idiota que gosta de reclamar de tudo, mas o problema que isso gera é fazer parecer que o problema começou em 2002. Não começou.

Há um professor na Unicamp chamado Armando Boito Jr, que trabalha com o tema do sindicalismo. Ele possuí um artigo muito bom sobre as maiores centrais brasileiras e se chama “Hegemonia Neoliberal e Sindicalismo no Brasil”. Eu poderia mandar vocês lerem, mas não o farei por dois motivos:

1. Ninguém leria;

2. “Vocês” não existem. As únicas pessoas que acessam este blog sou eu mesmo e a minha namorada, e só acessa porque eu peço. Aliás: te amo, Nêga!

De qualquer maneira, o link tá aqui. Vou resumir a ópera: o sindicalismo do Brasil vêm se degenerando rumo a formação de uma burocracia desde a Era Vargas, quando os sindicatos tinham sua estrutura voltada para uma espécie de consultoria do Estado, traduzindo: os sindicatos não tinha como função representar suas bases, mas mantê-las calminhas. Isso fica claro quando você lê a tão falada CLT. Cito exemplos:

Art. 513. São prerrogativas dos Sindicatos:

(…)

d) colaborar com o Estado, como órgãos técnicos e consultivos, no estudo e solução dos problemas que se relacionam com a respectiva categoria ou profissão liberal;

(…)

Art. 514. São deveres dos Sindicatos:

a) colaborar com os poderes públicos no desenvolvimento da solidariedade social;

O mérito da crise do sindicalismo brasileiro, entretanto, não é todo de Vargas: as atuais centrais são tão culpadas quanto. A CUT, por exemplo, desde de seu IV Congresso (IV CONCUT), vem apontando rumo a uma degeneração rumo à burocracia e a total falta de representatividade, muito em virtude de uma errada concepção de sindicalismo, que já era embrionária na CLT: a de um sindicalismo que funciona como consultoria para o governo, e ele não começou com Lula: em 1991, a Força Sindical (fundada pela chamada “direita do movimento sindical” e apoiadora de Collor) teve uma de suas figuras, Rogério Magri, convertida em Ministro do Trabalho.

No governo FHC, a relação CUT e governo foi complicada, entretanto teve seus momentos de paz:

“A repercussão, aqui no Brasil, da greve geral francesa contra as mudanças neoliberais da Previdência daquele país e a relutância dos parlamentares, inclusive dos partidos governistas, em aprovar medidas impopulares em ano eleitoral fizeram o governo FHC mudar de postura. Quanto a Vicentinho [Presidente da CUT], pareceu açodado ao ver chegar o omomento pelo qual esperara desde que assumiu a direção da CUT em 1994: suspendeu a mobilização sindical já programada para o mês de janeiro [de 1996] e cedeu em tudo na negociação (…)”

O trecho é do artigo que eu citei acima e que vocês não vão ler. E todo esse meu lenga-lenga veio pra dizer que a crise do sindicalismo brasileiro é um buraco muito mais embaixo do que a mídia noticiou na última semana.

Vamos a Lula:

O governo do metalúrgico não é isento no processo de burocratização do sindicalismo brasileiro. Se no governo FHC, as centrais burocratizavam-se, hoje elas se calam. Isso foi evidenciado em uma grande reportagem de capa da revista Época, publicada na edição nº 625, de 10 de maio deste ano. O governo Lula aprofundo o processo já em andamento dentro do movimento sindical: privatizou as pautas e estatizou o método.

As pautas das organizações sindicais limitaram-se a questões específicas de cada empresa, tornando trabalhadores inimigos uns dos outros, pois tal lógica legitima o discurso de “eu não tive aumento porque o funcionário do fornecedor teve”. O método tornou-se estatizado, pois todas as reinvidicações viram apenas cartas para o Papai Noel enviadas pelos sindicatos às centrais. Ao invés de voltarem-se para suas bases, as centrais voltam-se para reuniões com ministros do trabalho e presidentes de Federação das Indústrias. Daí surge o deslocamento das bases e a burocratização tão denunciada esta semana.

E como se a situação já não fosse ruim o bastante, o governo ainda dá corda para o movimento se enforcar. Em 2008, reformando a estrutura tributária-sindical varguista, o governo libera 10% do imposto sindical para as Centrais, proporcional ao número de representados em cada uma. Essa proporcionalidade foi o que matou de vez: as centrais abandonaram a tese de que sua função era a de organizar as diversas categorias em torno de pautas comuns e viraram um “mercado sindical”, como bem colocou o artigo do Estadão. A corrida ao tesouro virou a filiação de novos sindicatos. Some tudo isso à burocratização mais a nomeação de sindicalistas para diversos fundos de pensão, noves fora igual à sindicalismo chapa-branca.

Há quem compare à exaustão os governos de Lula e Vargas. E neste ponto, a comparação faz todo o sentido.

Editorial desta semana da Agência Carta Maior.

O comportamento cínico e hipócrita da maioria das grandes empresas de comunicação do Brasil ficou mais uma vez evidenciado esta semana, e de um modo extremamente preocupante. Não se trata apenas de valores ou sentimentos, mas sim de fatos objetivos e de silêncios não menos objetivos. O relato sobre demissões na TV Cultura de São Paulo, causadas pelo interesse de jornalistas no tema dos pedágios, justifica plenamente essa preocupação. Um desses relatos, feito nesta sexta-feira pelo jornalista Luis Nassif, chega a ser assustador. Em apenas uma semana, dois jornalistas perderam o emprego, escreve Nassif, em função de uma matéria sobre pedágios. Ele relata:

Há uma semana, Gabriel Priolli foi indicado diretor de jornalismo da TV Cultura. Ontem (7), planejou uma matéria sobre os pedágios paulistas. Foram ouvidos Geraldo Alckmin e Aloízio Mercadante, candidatos ao governo do estado. Tentou-se ouvir a Secretaria dos Transportes, que não quis dar entrevistas. O jornalismo pediu ao menos uma nota oficial. Acabaram não se pronunciando.

Sete horas da noite, o novo vice-presidente de conteúdo da TV Cultura, Fernando Vieira de Mello, chamou Priolli em sua sala. Na volta, Priolli informou que a matéria teria que ser derrubada. Tiveram que improvisar uma matéria anódina sobre as viagens dos candidatos.

Hoje (8) , Priolli foi demitido do cargo. Não durou uma semana.

Semana passada foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do Roda Viva devido às perguntas sobre pedágio feitas ao candidato José Serra (ver vídeo aqui). Para quem ainda têm dúvidas: a maior ameaça à liberdade de imprensa que esse país jamais enfrentou, nas últimas décadas, seria se, por desgraça, Serra juntasse ao poder de mídia, que já tem, o poder de Estado.

Não é o primeiro relato sobre a truculência do ex-governador de São Paulo com jornalistas. Nos últimos meses, há pelo menos dois outros episódios, um deles envolvendo a jornalista Miriam Leitão, na Globonews, e outros envolvendo jornalistas da RBS TV, em Porto Alegre. A passagem da truculência à ameaça ao trabalho dos jornalistas é algo que deveria receber veemente manifestação da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), sempre prontas a denunciar tais ameaças. No entanto, ao invés disso, o que se houve é um silêncio ensurdecedor.

Mais uma vez, são blogs e sites de jornalistas independentes que cumprem o dever de informar ao público o que é de interesse público. E, mais uma vez também, os chamados jornalões e seus braços no rádio e na TV, calam-se, aliando submissão e cumplicidade com a truculência e o desrespeito ao trabalho de experientes profissionais. O mesmo silêncio, a mesma submissão e a mesma cumplicidade manifestadas nos recentes casos de assassinatos de jornalistas em Honduras, em função de sua posição crítica ao golpe de Estado ocorrido naquele país.

Esse triângulo perverso que une cinismo, hipocrisia e silêncio não é um privilégio da imprensa brasileira. Um outro caso, esta semana, envolveu uma das maiores cadeias de televisão do mundo. A CNN demitiu a jornalista Octavia Nasr, editora de noticiário do Oriente Médio, por causa de uma mensagem publicada por ela em sua página no Twitter onde manifestou “respeito” pelo ex-dirigente do Hezbollah, Sayyed Mohammed, que morreu no final de semana passado. Octavia tinha 20 anos de trabalho CNN. O que ela escreveu no twitter e causou sua demissão foi: “(Fiquei) triste por saber do falecimento do Sayyed Mohammed Hussein Fadlallah…Um dos gigantes do Hezzbollah que eu respeito muito”. Parisa Khosravi, vice-presidente-sênior da CNN International Newsgathering, afirmou em um memorando interno que “teve uma conversa” com a editora e “decidimos que ela irá deixar a companhia”.

Essa mesma CNN não hesita em denunciar agressões à liberdade de imprensa em outros países quando isso é do interesse de sua linha editorial e dos interesses geopolíticos da empresa. Crime de opinião? Segundo as versões oficiais, isso só existe em países do chamado eixo do mal.

Esse mesmo triângulo perverso ajuda a entender por que essas grandes corporações midiáticas não querem debater com a sociedade a sua própria atuação. Colocam-se acima do bem e do mal como se fossem portadores de legitimidade pública. Não são. Ao cultivarem esse tipo de comportamento e prática, o que estão fazendo, na verdade, é auto-atribuir-se, de modo fraudulento, uma suposta representação pública. Representam, na verdade, os interesses dos donos das empresas e, cada vez menos, o interesse público.

Neste exato momento, o planeta vive aquele que pode vir a se confirmar como o maior desastre ecológico de sua história. O acidente com a plataforma da British Petroleum no Golfo do México e o vazamento diário de milhões de litros de óleo no mar tem proporções ainda incalculáveis. No entanto, a cobertura midiática sobre o caso nem de longe é proporcional, em quantidade e qualidade, à gravidade e importância do caso. Organizações ambientalistas já denunciaram que a BP vem operando pesadamente nos bastidores para bloquear e filtrar informações.

É preciso ter clareza que são os dirigentes e porta-vozes dessas corporações midiáticas e seus braços políticos e empresariais que não hesitam em denunciar qualquer proposta de tornar transparente à sociedade o seu trabalho, supostamente de interesse público. O bloqueio e seleção de informações, a demissão de jornalistas incômodos e a truculência com aqueles que ousam fazer alguma pergunta fora do script são diferentes faces de um mesmo cenário: o cenário da privatização da informação, da deformação da verdade e da destruição do espaço público.