por Marco Aurélio Weissheimer, na agência Carta Maior.
Em uma matéria sobre a candidatura de José Serra, publicada no dia 21 de abril de 2010, a revista Veja apresentou o candidato tucano como o homem capaz de “liderar o Brasil na era pós-Lula”. “Eu me preparei a vida inteira para ser presidente”, diz Serra na matéria que apresenta entre as supostas virtudes do candidato a capacidade de “formar boas equipes e desestimular antagonismos corrosivos entre os membros do governo”.
Infelizmente, para a Veja e para Serra, de lá para cá, o que menos se vê na campanha tucana é a “formação de boas equipes” e o “desestímulo a antagonismos corrosivos”. Muito pelo contrário. Antagonismos corrosivos parecem ser um dos eixos programáticos da candidatura Serra. O processo de escolha do vice é rico em ilustrações a respeito. Em meio ao fogo cruzado que se estabeleceu entre PSDB e DEM, no debate sobre a escolha do vice, aliados de Serra deram depoimentos a respeito do candidato que não definem exatamente alguém capaz de “desestimular antagonismos corrosivos”.
“O poder do Serra de desorganizar as coisas é fora do comum. O Álvaro Dias não acrescenta nada e desagrega muito”, escreveu o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM-GO) no twitter, logo após ter ficado sabendo, pela imprensa, da indicação de Dias para ser vice de Serra. “O DEM não poderia saber da indicação do vice pela imprensa. Que tipo de parceria é esta?”, acrescentou o deputado Felipe Maia (DEM-RN). Fiel ao seu estilo,o ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, respondeu, também pelo twitter: “O DEM é uma merda”. Em meio a esse tiroteio, a campanha de Serra sofreu outro revés. No dia 30 de junho, o Partido Social Cristão (PSC) rompeu a aliança que havia feito com o PSDB e anunciou o apoio formal à candidatura de Dilma Rousseff á presidência da República.
As brigas, antagonismos e desencontros se sucedem na campanha tucana. Aliados históricos de Serra imprimiram seus materiais de campanha sem mencionar seu nome nos mesmos. De Norte e Sul do país, diferentes marqueteiros dão o mesmo conselho: associar o nome a Serra pode custar muitos votos. Mesmo aliados tradicionais de Serra, como Arthur Virgílio (PSDB-AM) e José Agripino Maia (DEM-RN) estão distribuindo material de campanha sem mencionar o nome de seu candidato a presidente. Neste cenário, a matéria da Veja assume tons cômicos:
“Para aumentar sua massa de eleitores no Norte e no Nordeste, Serra conta com bons palanques estaduais. Ele terá, ao contrário do que ocorreu com Geraldo Alckmin em 2006, diversos candidatos competitivos disputando o cargo de governador a lhe dar sustentação nessa empreitada” – profetizou Veja com toda sua sabedoria.
As brigas na campanha de Serra fazem lembrar as propagandas das famosas facas guinsu, aquelas que cortavam até canos de aço sem perder o fio. Quando você acha que acabou lá vem o aviso: mas isso não é tudo. A última de Serra é a briga que ele comprou com o presidente do DEM, Rodrigo Maia. Matéria do jornal O Estado de São Paulo (10/08/2010) informa:
“Não existem mais pontes entre o presidente do DEM, Rodrigo Maia (RJ), e o candidato tucano. As poucas que um dia chegaram a existir foram todas “dinamitadas”. A gota d’água numa relação que sempre foi tumultuada aconteceu na semana passada. Serra cobrou Maia sobre uma declaração que ele havia dado a respeito da candidatura de Fernando Gabeira (PV) no Rio de Janeiro. Diante da falta de empenho, Gabeira disse que, se eleito, se sentia no direito de “dar uma banana” aos aliados. Maia, em seguida, afirmou que a “banana” devia ser para Serra. O tucano ligou para o presidente do DEM e pediu que se retratasse. Maia não fez retificação e os dois romperam”.
A maldição de Dorian Gray parece ter se abatido sobre José Serra. A imagem meiga e angelical pintada na capa da revista Veja vai se transformando, ao longo da campanha no retrato de alguém truculento, autoritário e especialista em provocar “antagonismos corrosivos”. Serra vem exercitando essa capacidade com amigos e inimigos, sem distinção. Além de dinamitar pontes com aliados, já xingou e brigou com jornalistas, acusou o governo de um país amigo do Brasil de estimular o tráfico de drogas e qualificou de farsa o processo de integração sulamericano.
Curiosamente, o retrato de José Serra que vai aparecendo durante a campanha se assemelha cada vez mais aquele que seus aliados tentam colar em Dilma Rousseff. Vide a “entrevista” truculenta conduzida por William Bonner, no Jornal Nacional (as aspas são uma homenagem à inusitada prática de perguntar e não deixar a entrevistada responder, mais uma contribuição da Globo à inovação do jornalismo brasileiro). O comportamento recente de Serra com jornalistas recomenda uma boa dose de cautela para o casal Bonner-Bernardes quando for a vez de entrevistá-lo. Perguntas sobre práticas truculentas e autoritárias podem ser respondidas com uma demonstração didática das mesmas. O retrato pintado pela revista Veja começa a apresentar contornos e tonalidades que variam entre o incômodo e o sinistro.


![Na última sexta-feira, veio a tona um momento raro: João Pedro Stédile, economista e membro da coordenação nacional do MST, rompeu seu característico silêncio para com a mídia e concedeu entrevista à Natuza Nery, da agência Reuters. E como se o meu artigo para o Intercom já não estivesse suficientemente atrasado, eu encontro tempo para comentar a entrevista aqui.
A entrevista qualificou o JP (como eu carinhosamente o chamo) como um “economista marxista”. De fato, é. Entretanto, Stédile parece negar aquele que é o pilar básico da teoria desenvolvida pelo alemão mais comentado e menos lido de todos os tempos: a História.
Stédile, aponta como falsa a propaganda do governo Lula no que tange a questão campesina.
“‘Lula não fez reforma agrária, mas uma política de assentamento…Metade dos números do governo é propaganda’, afirma Stédile”.
Em outro ponto da entrevista lê-se:
“nos últimos anos, justamente num governo considerado amigo, o MST tenha se enfraquecido e chegado à conclusão de que ‘o agronegócio venceu’”.
Mas, vai saber porque, JP insiste na mesma fórmula:”O PT é nosso amigo! O PT é nosso colega! Eles vão fazer com a gente o que… [censurado pelo meu bom senso]”. E o motivo que Stédile aponta para o MST continuar chutando cachorro morto é tão ruim quanto o que a disculpa tenta justificar:
“Um operário, diante de um patrão reacionário, não se mobiliza. Com Dilma, nossa base social perceberá que vale a pena se mobilizar, que poderemos avançar, fazendo mais ocupações e mais greves”
O que Stédile fez aqui, criançada? Piorou um dos eixos centrais do trotskismo, que eu já achava bem ruinzinho, o de que “a crise do proletariado é a crise de sua direção”. Aqui, a crise do proletariado é a crise de seu patrão.
Mesmo criticando a política do governo Lula para a questão da reforma agrária, Stédile insiste em aposta na continuidade deste projeto. Em defesa de tal, ele apontou a margem de mobilização que se abriria. A candidata governista pensa diferente: em almoço com o Grupo de Líderes Empresariais no dia 5 deste mês, ao contrário do entendimento de Stédile, Dilma Rousseff defendeu a política para o campo do governo Lula como forma não de mobilização, mas de combate ao MST.
“‘O MST tem muito menos razão para se mobilizar. A maior arma foi a política social muito bem sucedida. Isso configura a verdadeira forma de se combater. Você tira a base. Demos a eles (pequenos agricultores) uma alternativa ao programa do MST’, disse Dilma, nesta segunda-feira, em almoço promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), entidade que reúne 44% do PIB privado do país.”
(informações retiradas de notícia de Ricardo Gardalho, do Portal IG)
A amarga verdade por trás desta afirmação é que, a ocontrário do que Dilma fala em almoços com os donos de 44% do PIB privado brasileiro, a política de reforma agrária do governo Lula não está funcionando: dia 22 do mês passado, o Estadão publicou trechos de um documento do Ministério do Planejamento que foi logo retirado da página virtual da pasta ministerial.
“‘Pode-se afirmar que, até o momento, não se conseguiu realizar a reforma agrária, de fato’, diz o documento. ‘Apesar de passarem a ter acesso a terra e a alguns serviços, a qualidade de vida dessas populações (os assentados) permanece muitas vezes a mesma que era antes de terem sido assentadas.’”
O texto ainda aponta diversos outros problemas, como a falta de assistência técnica aos assentados e a falta de planejamento para o tema. “nem foram traçadas metas para a reforma agrária para o período do PPA (Plano Plurianual de Investimentos) 2008-2010.”, diz o documento.
Outro problema foi apontado pelo jornalista Evandro Éboli no jornal O Globo: os índices de produtividade, que norteiam o processo de desapropriação de terras improdutivas, estão totalmente defasados. Por exemplo: para uma terra voltada para a pecuária ser tida como improdutiva em Alta Floresta (MT), ela precisa ter uma Unidade Animal por Hectare de, no mínimo, 0.46, menos de meia vaca em um hectare inteiro. A atualização de tais índices era uma promessa do governo Lula e, segundo os procuradores Álvaro Manzano e Luciana Oliveira, tem sua efetivação dificultada pela pasta da Agricultura. Os dois procuradores movem ação contra o governo pela atualização destes índices.
É essa a política de reforma agrária que Dilma defende.
Em ano futebolístico, Stédile disse que o voto do MST em Dilma é puramente pragmático. “É como se você percebesse que seu time pode cair pra segunda divisão e faz o que for possível para vencer o campeonato.”, diz ele. Eu devolvo contraponho um outro comentário sobre futebol: a sabedoria popular diz que em time que tá ganhando não se mexe. O problema é que o time dele não está ganhando. E JP sabe disso.
*foto por Sergio Moraes/Reuters](http://25.media.tumblr.com/tumblr_l5fq6cvXI81qbfn7lo1_400.jpg)
